quinta-feira, 5 de junho de 2008

Fedro - Resumo

A Versão de Platão para o Amor
Impossível não falar mais um pouco deste que é o maior dos discursos na literatura e que fala do amor: Fedro.
Depois que Fedro reproduziu para o velho Sócrates o parecer de Líseas sobre o amor, este, com sua extra-terrena sabedoria, emocionou-se com tal discurso. Mas, momentos depois, refletiu e disse para o amigo Fedro que algo não estava de acordo com o tal discurso. Fez ele, o próprio Sócrates um discurso pelo qual se arrependeu e em seguida, num sopro de inspiração divina, disse tudo que sabia sobre o Amor… Então, falando de almas e sentimentos superiores, Sócrates decidiu avaliar melhor a questão.
Este livro Fedro eu até suplico que seja lido, pois jamais acharão em qualquer outra escritura tamanha sensibilidade e sabedoria para se falar de um tema que provavelmente não conhecemos bem: o amor! Na faculdade onde estudo e em meu bairro, vivo dizendo para as pessoas que as amo. E amo mesmo, não posso evitar esta sensação maravilhosa… ainda bem!
Não resisti e resolvi postar mais um trecho deste que é o maior dos heróis da filosofia, Platão, que humilde e sabiamente escreveu em fabulosa literatura todo o pensamento socrático. Fedro é o resumo da filosofia de Platão, que resumiu a alma pensante de Sócrates.
Trecho do livro Fedro
Só então a alma do amante segue, com receio e pudor aquele que ama.
Entretanto, o jovem que se vê mimado e honrado como um deus pelo seu amante, tem desperta em si a necessidade de amar. Se antes, os seus amigos ou outras pessoas lhe denegriram esse sentimento, afirmando ser vergonhoso um tal consórcio amoroso, e se esses conselhos o afastaram do seu amante, o tempo que passa, a idade, a necessidade de amar e de ser amado, levam-no, de novo, aos braços do amante. Não é desígnio do fado que o malvado ame o malvado e que um homem virtuoso não possa ser amado pelo homem virtuoso. Quando o amado recebe o amante, que desfrutou da sua doçura e do seu convívio, compreende que o afeto de seus amigos e parentes em nada é comparável ao de um amante inspirado pelo delírio. Assim vivem, se vêem e se tocam, ora nos estádios, ora em outros lugares. Assim nasce essa emanação que Júpter, quando amara Ganípedes, chamou de desejo. Esse desejo se insinua ao amante, e quando este se encontra cheio dele, transborda. Do mesmo modo que um zéfilo ou que um som refletido por um corpo sólido e polido, também as emanações da beleza, entrando pelos olhos através dos quais - como lhe é natural - atingem a alma, volta esta ao belo, estende as asas e, molhando-as, as torna capazes de gerar novas asas, inundando também de amor a alma do amado. Ele ama, mas sem saber o quê. Nem sabe , nem pode dizer o que aconteceu consigo; assim como um contaminado de oftalmia desconhece a origem de seu mal, assim também o amado, no espelho do amante, viu-se a si mesmo sem dar por isso. Na presença do amado a dor do amante se esvai, e o mesmo sucede com este na presença daquele. Quando o outro está longe, o amante sente tristeza, e da mesma forma esta sacode o amado, porque ele abriga o reflexo do amor - acreditando, contudo, que se trata de amizade, e não de amor…
Nota - Este Amor Platônico foi desgastado em tantas trovas e poesias, em falas e conversas de bar e por escritores ávidos pela poesia de Platão; porém reinará puro e absoluto entre nós. Suponho que Platão estivesse querendo nos persuadir a enxergar o amor de uma outra perspectiva, onde nada pode ser mais importante que o simples ato de amar, mesmo que seja um amor carregado de desejo, ainda assim só se sente que é amor, porque sente-se sua força, e é justamente na sua ausência, que ele se realiza…

Principais teorias de Platão

Platão achava um absurdo que homens com mais votos pudessem assumir cargos da mais alta importância, pois nem sempre o mais votado é o melhor preparado. Era preciso criar um método para impedir que a corrupção e a incompetência tomassem conta do poder público, Mas atrás desses problemas estava a psyche humana, como havia identificado Sócrates, Para Platão o conhecimento humano vêm de três fontes principais: o desejo, a emoção, e o conhecimento, que fluem do baixo ventre, coração e cabeça, respectivamente. Essas fontes seriam forças presentes em diferentes graus de distribuição nos indivíduos. Elas se dosariam umas às outras, e num homem apto a governar, estariam em equilíbrio, com a cabeça liderando continuamente. Para isso, é preciso uma longa preparação e muita sabedoria. O mais indicado, para Platão, é o filósofo: "enquanto os filósofos deste mundo não tiverem o espírito e o poder da filosofia, a sabedoria e a liderança não se encontrarão no mesmo homem, e as cidades sofrerão os males".
Para começar essa sociedade ideal, como dissemos, deve-se tirar os filhos dos pais, para protegê-los dos maus hábitos. Nos primeiros dez anos, a educação será predominantemente física. A medicina serve só para os doentes sedentários das cidades. Não se deve viver para a doença. Para contrabalançar com as atividades físicas, a música. A música aperfeiçoa o espírito, cria um requinte de sentimento e molda o caráter, também restaura a saúde.
Depois dos dezesseis anos, e de misturar a música para lições musicais com a música pura, essas práticas são abandonadas. Assim os membros dessa comunidade teriam uma base psicológica e fisiológica. A base moral será dada pela crença em Deus. O que torna a nação forte seria Ele, pois ele pode dar conforto aos corações aflitos, coragem às almas e incitar e obrigar. Platão admite que a crença em Deus não pode ser demonstrada, nem sua existência, mas fala que ela não faz mal, só bem. O mal para Platão é apenas a ignorância do bem, e ele procura demonstrar que o mal inexiste, e ninguém opta por ele de forma voluntária.
Aos vinte anos, chegará a hora da Grande Eliminação, um teste prático e teórico, Começa a divisão por classes da República. Os que não passarem serão designados para o trabalho econômico. Depois de mais dez anos de educação e treinamento, outro teste. Os que passarem aprenderão o deleite da filosofia. Assim se dedicarão ao estudo da doutrina e do mundo das Idéias.
O mundo das Idéias de Platão é um mundo transcendente, de existência autônoma, acima do mundo sensível. As Idéias são formas puras, modelos perfeitos eternos e imutáveis, paradigmas. O que pertence ao mundo dos sentidos se corrói e se desintegra com a ação do tempo. Mas tudo o que percebemos, todos os itens são formados a partir das Idéias, constituindo cópias imperfeitas desses modelos espirituais. Só podemos atingir a realidade das Idéias, na medida em que pelo processo dialético, nossa mente se afasta do mundo concreto, atravessando com a alma sucessivos graus de abstração, usando sistematicamente o discurso para se chegar à essência do mundo. A dialética em Platão é o principal instrumento de busca da verdade.
O pensamento de Platão dialogava com antigas tradições já existentes, como algumas orientais e egípcias, coadunante com sua teoria de metempsicose, por exemplo. Ele acreditava numa alma imortal, que já existia no mundo das Idéias antes de habitar nosso corpo. O diálogo que melhor demonstra isso é o Fédon. Assim que passa a habitá-lo, a alma se esquece das Idéias perfeitas. Então o mundo se apresenta a partir de uma vaga lembrança. A alma quer voltar para o mundo das Idéias e por isso o conhecimento está ligado à lembrança. No diálogo Mênon, Sócrates mostra que um escravo (considerado inferior naquela época) podia ter um intrincado conhecimento abstrato de matemática, pois sua alma já possuía o conhecimento que Sócrates, porta-voz da Academia de Platão, ia trazer à luz através do seu jogo de perguntas e respostas.. Um dos primeiros críticos de toda essa teoria de Platão foi um de seus alunos da Academia, Aristóteles.Igualmente conhecida na República é a alegoria da caverna, que ilustra como percebemos apenas parte do mundo, reduzindo-o. O termo "Alegoria" é mais adequado que "Mito da Caverna". Embora Platão use do mito em outras partes de seus escritos, no livro VII da República, onde está contada a história, a intenção é usar de uma alegoria para ilustrar um movimento de dificil compreensão, que é a libertação dos grilhões que aprisionam o homem possibilitada pela prática da verdadeira filosofia.
Um grupo de pessoas vive acorrentada numa caverna desde que nasceu, de costas para a entrada. Elas vêem refletida na parede da caverna as sombras do mundo real, pois há uma fogueira queimando além de um muro, depois da entrada. Elas acham que as sombras são tudo o que existe. Um dos habitantes se livra das amarras. Fora da caverna, primeiro ele se acostuma com a luz, depois vê a beleza e a vastidão do mundo, com suas cores e contornos. Ao voltar para a caverna para libertar seus companheiros, acaba sendo assassinado, pois não acreditam nele.
Na República, depois de estudar a filosofia, aqueles que forem considerados aptos irão testar seus conhecimentos no mundo real, onde experimentarão os dissabores da vida, ganhando comida conforma o trabalho, experimentando a crua realidade. Aos cinqüenta anos, os que sobreviveram tornarão-se os governantes do Estado ideal de Platão.
Todos terão oportunidades iguais, mas na eliminação serão designados para classes diferentes. Os filósofos-reis não terão nenhum privilégio, tendo só os bens necessários, serão vegetarianos e dormirão no mesmo lugar. A procriação será para fins eugênicos, o sexo não será apenas por prazer. Haverá defensores contra inimigos externos, os guardiões, homens fortes, dedicados à comunidade. Não haverá diferença de oportunidade entre o sexo, sendo cada um designado a fazer uma tarefa de acordo com a sua capacidade.
Os pensamentos políticos de Platão continuam se desenvolvendo e adquirem larga importância na tradição oriental. O filósofo fala da renuncia do individuo em prol da comunidade, impondo inúmeras condições para a vida. Ele atenta para um problema muito preocupante em nossos dias: a superpopulação. Os homens só poderiam se reproduzir entre os trinta e quarenta e cinco anos, e as mulheres entre os vinte e quarenta anos. Também a legislação de Esparta, que muito inspirou Platão, e a proposta de Aristóteles na Política levam em conta este aspecto. Assim, resumidamente seria o Estado ideal, justo. O próprio Platão fala de dificuldade em se fazem um empreendimento dessa natureza. O rei de Siracusa ofereceu à ele terras onde poderia experimentar sua República, e ele aceitou, mas o rei ficou sabendo que quem iria governar eram os filósofos e mudou de idéia. Platão experimentou muitos dissabores na corte de Siracusa, a qual voltou depois, conforme conta na sua carta VII e Plutarco conta em sua Vida de Díon, disponível aqui no site. Platão morreu em uma festa, onde se afastou num canto e dormiu. Quando foram acorda-lo de manhã, já estava morto. Uma multidão acompanhou-o até o túmulo.

Dados Históricos de Platão

O homem e a lenda

"A vida de um grande homem, particularmente quando ele pertence a uma época remota", escreve o historiador A . E. Taylor, "jamais pode ser o mero registro de fatos indiscutíveis. Mesmo quando tais fatos são abundantes, a verdadeira tarefa do biógrafo consiste em interpretá-los; deve penetrar, além dos simples eventos, no propósito e no caráter que eles revelam, o que só consegue fazer mediante um esforço de imaginação construtiva.
No caso das duas figuras históricas que exerceram a mais profunda influência na vida da humanidade, Jesus e Sócrates, fatos indiscutíveis são extraordinariamente raros; talvez haja apenas uma afirmativa a respeito de cada um deles que não possa ser negada sem que se perca o direito a ser contado ente os sensatos.
É certo que Jesus ‘sofreu sob Pôncio Pilatos’, e é não menos certo que Sócrates foi levado a morrer em Atenas, sob acusação de impiedade, no "ano de Laques" (399 a . C.). Qualquer consideração sobre ambos que vá além dessa afirmativas constitui inevitavelmente uma construção pessoal."
O próprio Sócrates nada deixou a respeito de suas atividades e de seu pensamento.
Como Jesus, ele nada escreveu e as principais informações que se tem sobre sua vida e sobre seu ensinamento provêm de textos de discípulos, que podem Ter retratado o mestre com os excessos ditados pela admiração e pelo afeto.
Há, além disso, há discrepâncias entre esses diferentes perfis – o que gera um problema sério para os historiadores da filosofia.
Por outro lado, Sócrates aparece caricaturado em alguns comédias de Aristófanes (c. 448-385 a . C.), seu contemporâneo, que o utiliza, em parte, como protótipo dos filósofos que especulavam sobre os fenômenos celestes ou que, com artifícios retóricos, "faziam passar por boa uma causa má".
Na Apologia de Sócrates, escrita por Platão, o próprio Sócrates, durante seu julgamento, é levado a rebater esse seu retrato feio "por um certo poeta cômico", Aristófanes.
Mas o fato é que o Sócrates de que se tem notícia através dos textos antigos surge como um rosto diversamente refletido por diferentes espelhos.
Quais os que o deformam, exagerando-lhe ou modificando-lhe os traços? Onde a face verdadeira?
Para a elucidação da "questão socrática" deve-se, de saída, lembrar que o período em que viveu Sócrates – a Atenas da época de Péricles – não foi marcado pelo desenvolvimento da prosa literária. Foi, ao contrário, uma fase caracterizada pela criação de grandes obras teatrais, particularmente tragédias.
Isso justifica, de certo modo, o fato de não se ter nenhuma alusão de um contemporâneo a respeito do que Sócrates teria feito ou dito até quase a idade de cinqüenta anos.
Tinha aproximadamente 47 anos quando alguns poetas cômicos – Aristófanes, Amipsias e depois Eupolis – o tomaram para personagem de suas composições burlescas.
Dessas, apenas a caricatura de Aristófanes conservou-se, tornando-se o único depoimento sobre Sócrates surgido antes de sua morte. Depois desta, eclodiu uma rica produção literária que tomava Sócrates para personagem central.
Seus discípulos fazem-lhe a defesa póstuma e apresentam-no como modelo da sabedoria e das virtudes humanas: Platão torna-o a figura principal da maioria de seus Diálogos, Xenofonte exalta-o principalmente nas Memoráveis. Ésquines, em diversas obras (que se perderam), fala do mestre de quem fora amigo constante.
Mas todos eles descrevem um Sócrates de mais de 45 anos. E, possivelmente, um dos motivos da divergência entre os depoimentos que oferecem e o mestre que se considerava imbuído da missão – assumida em face de decisiva declaração do oráculo de Delfos – de despertar os homens para o conhecimento de si mesmos. Já Aristófanes, particularmente em "As Nuvens", teria feito uma caricatura de Sócrates mais jovem, personagem já famosa em Atenas antes mesmo de desempenhar a atividade missionária de que se julgou incumbido mais tarde. Visto em épocas tão diferentes, Sócrates poderia Ter permitido retratos tão diversos : o mestre modelar, segundo discípulos, e a personagem apresentada por Aristófanes, cômica mas perigosa, pois, na medida em que investigaria os fenômenos celestes – como os filósofos da Jônia -, lançava o descrédito sobre as tradições religiosas que fundamentavam as instituições políticas, e, enquanto apresentaria "como boa uma causa má" – à semelhança de certos sofistas, professores de retórica -, daria aos jovens um perigoso exemplo de relativismo, capaz de abalar a aceitação dos valores tradicionais, éticos, políticos e religiosa.
Defensor desses valores, Aristófanes teria centralizado no ateniense Sócrates a crítica às idéias trazidas de outras terras por pensadores que haviam ocorrido a Atenas atraídos pelo apogeu cultural e político da cidade, como Anaxágoras de Clazômena ( c. 500-428 a . C.) e Protágoras de Abdera (c. 490-421 a . C.).
O próprio Platão, no Fédon, faz Sócrates confessar o entusiasmo inicial que lhe despertou a obra de Anaxágoras; e indiscutivelmente, pelo menos na aparência, a dialogação socrática tinha, por outro lado, muito da surpreeendente e embaraçosa habilidade retórica dos sofistas – o que mostra que, embora se apresentando (na versão platônica) como adversário daqueles mestres de eloquência e argumentação, Sócrates absorvera-lhes, se não as teses relativistas, pelo menos a arma de combate.
O depoimento de Aristófanes sobre Sócrates possui assim – para muitos historiadores – certo fundamento, sobretudo em relação ao Sócrates que ainda não havia sido tocado pela palavra do oráculo.
Mesmo porque o efeito de comicidade a que visava Aristófanes não teria nenhum resultado se a caricatura traçada não apresentasse, aos olhos do público, alguma semelhança com o modelo real.

A questão "socrática"

Outros depoimentos antigos importantes sobre Sócrates são o de Aristóteles (384-322 a . C.) – discípulo de Platão – e os provenientes de biógrafos da fase helenística, como Diógenes Laércio (século III d . C. ).
Todavia, a interpretação aristotélica de Sócrates – que o apresenta como iniciador do trabalho de definição de conceitos (relativos ao campo moral) – é vista com reservas pelos historiadores, pois Aristóteles sempre "aristoteliza" o pensamento de seus antecessores, tornando-os momentos preparatórios de suas próprias concepções filosóficas.
Por outro lado, as biografias que sobre os pensadores mais antigos da Grécia foram produzidas no período helenístico não apresentam grande exigência crítica.
Numa fase marcada pela sombra da perda de liberdade política, o importante para os gregos era descrever a vida daqueles que haviam vivido nos momentos da perdida grandeza política, sem se importar tanto com o rigor das informações e misturando dados históricos com relatos fantasiosos.
As fontes mais seguras para a reconstituição da vida e do pensamento de Sócrates continuam sendo, assim, os depoimentos de seus contemporâneos.
Do confronto entre os testemunhos deixados por Platão, Xenofonte e Aristófanes é que sobretudo os historiadores têm procurado recompor a verdadeira fisionomia do Sócrates-homem e do Sócrates –filósofo.
Se Aristófanes teria focalizado Sócrates na fase anterior a seu magistério filosófico e se, além disso, misturou-lhe os traços com os de cosmólogos jônicos e os dos sofistas, então de Xenofonte e de Platão é que devem ser recolhidas as principais informações referentes ao Sócrates que marcou t~]ao profundamente não apenas a cultura grega como também toda a herança ocidental.
Xenofonte, porém, segundo a maioria dos historiadores, espírito bastante simplório, não teria tido condições para apreender toda a dimensão dos ensinamentos socráticos.
Essa seria a razão de, freqüentemente, trazer as idéias éticas de Sócrates para o nível de simples lugares-comuns, empobrecendo-as e deturpando-as.
O contrário exatamente é o que se pode dizer de Platão: ninguém mais bem dotada para acompanhar o mestre em todas as sus sutilezas e em todos os seus vôos, por mais altos que se alçassem.
Aqui o perigo é oposto: Platão pode Ter atribuído a Sócrates mais do que ele disse ou quis dizer.
E, na medida em que o torna personagem-chave de quase todos os diálogos que escreveu, não apenas reportou situações e debates vividos por Sócrates, como – considerando-se continuador da linha de pensamento inaugurada pelo mestre – utilizou-o, a partir de certo momento da evolução de sua própria filosofia, como porta-voz de suas doutrinas.
A resolução da "questão socrática" transforma-se assim, em grande parte, na questão da delimitação de fronteiras entre o pensamento de Sócrates e o de Platão, dentro dos próprios diálogos platônicos.
Confrontando-se o socratismo de Platão com o dos chamados "socráticos menores" (megáricos, cínicos, cirenaicos), pode-se, até certo ponto, tentar uma aproximação do Sócrates histórico.
Este, de qualquer forma, desde a Antigüidade, perdeu o caráter estrito de indivíduo concreto, condenado à morte em 399 a . C., para se transformar em ideal humano ou em motivo de escândalo – um elemento definitivamente integrante da consciência ética do Ocidente.
Na medida mesma em que só se tem de Sócrates reflexos produzidos na consciência e na obra de discípulos ou de adversários, já que ele teria escolhido a comunicação direta e viva do diálogo oral, torna-se difícil reconstituir com fidelidade sua vida e seu pensamento.
Diante das incertezas inevitáveis, alguns historiadores modernos chegaram a levantar a hipótese da inexistência do Sócrates histórico – pelo menos com as características que lhe foram apontadas pelos relatos dos antigos.
Sócrates, chegou-se a afirmar, seria uma criação literária, a serviço do nacionalismo ateniense.
Se essa tese não prevalece entre os historiadores, por outro lado é inegável que a recuperação de Sócrates como "fato" histórico defronta-se com a dificuldade da escassez de dados indisputáveis: a objetividade histórica de Sócrates se dilui na teia de depoimentos diversos e ás vezes discrepantes. Porém não foi justamente isso o que – segundo a Apologia platônica – ele quis ser: alguém que apontava não para a ciência das coisas e sim para a consciência do próprio homem?
A ciência sobre Sócrates – a resolução da "questão socrática", a reconstituição do Sócrates histórico – não poderia assim ser socraticamente reformulada?
A escassez de dados objetivos indiscutíveis a seu respeito não o transforma, fundamentalmente, num apelo á consciência do homem que dele se aproxima – como contemporâneo ou como estudioso, em qualquer época, de seu pensamento? Ele, que reiteradamente teria afirmado não possuir ciência alguma, não teria também declarado ter aceito a missão de ajudar os homens a se voltarem para o conhecimento de si mesmos , para o desbravamento da própria subjetividade é, tentando a conquista da própria alma?
Pois essa consciência e essa subjetividade é que estão desde logo comprometidas com Sócrates, quando se pretende recuperar sua fisionomia autêntica.
Tentar decifrá-lo é já decifrar-se um pouco, buscar conhecê-lo é inevitavelmente uma ocasião para reagir ao desafio de seu enigma.
Sócrates remete seu decifrador à própria consciência, oferecendo-lhe uma ocasião para se conhecer a si mesmo.

Vida e Obra de Platão


A Vida e as Obras


Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico.
Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara.
Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas.
Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.).

Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento.
Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade.
Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa.
A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltam-lhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita.
A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos - em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo .
O Pensamento: A GnosiologiaComo já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral - Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade.
Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico.
Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo.
Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim, sem saber porque o estão, ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão, precisamente porque é ciência, isto é, conhecimento das coisas pelas causas.
Sócrates estava convencido, como também Platão, de que o saber intelectual transcende, no seu valor, o saber sensível, mas julgava, todavia, poder construir indutivamente o conceito da sensação, da opinião; Platão, ao contrário, não admite que da sensação - particular, mutável, relativa - se possa de algum modo tirar o conceito universal, imutável, absoluto. E, desenvolvendo, exagerando, exasperando a doutrina da maiêutica socrática, diz que os conceitos são a priori, inatos no espírito humano, donde têm de ser oportunamente tirados, e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem, e sim a ocasião para fazê-los reviver, relembrar conforme a lei da associação.
Aqui devemos lembrar que Platão, diversamente de Sócrates, dá ao conhecimento racional, conceptual, científico, uma base real, um objeto próprio: as idéias eternas e universais, que são os conceitos, ou alguns conceitos da mente, personalizados. Do mesmo modo, dá ao conhecimento empírico, sensível, à opinião verdadeira, uma base e um fundamento reais, um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis, como as concebiam Heráclito e os sofistas. Deste mundo material e contigente, portanto, não há ciência, devido à sua natureza inferior, mas apenas é possível, no máximo, um conhecimento sensível verdadeiro - opinião verdadeira - que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. Este mundo ideal, racional - no dizer de Platão - transcende inteiramente o mundo empírico, material, em que vivemos.
Teoria das Idéias
Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia.
A ciência é objetiva; ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Ora, de um lado, os nossos conceitos são universais, necessários, imutáveis e eternos (Sócrates), do outro, tudo no mundo é individual, contigente e transitório (Heráclito). Deve, logo, existir, além do fenomenal, um outro mundo de realidades, objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. Estas realidades chamam-se Idéias. As idéias não são, pois, no sentido platônico, representações intelectuais, formas abstratas do pensamento, são realidades objetivas, modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas.
Todas as idéias existem num mundo separado, o mundo dos inteligíveis, situado na esfera celeste. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides, sem, com ele, negar a existência do fieri. Tal a célebre teoria das idéias, alma de toda filosofia platônica, centro em torno do qual gravita todo o seu sistema.
A Metafísica
As Idéias
O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias; e estas contrapõe-se amatéria obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas, através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece.
O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem, que está no vértice. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica, um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Esse conhecimento, aliás, se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível, para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. E, em geral, o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores, o dever ser, de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira.
Visto serem as idéias conceitos personalizados, transferidos da ordem lógica à ontológica, terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência, serão universais, imutáveis. Além disso, as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos, que se obtém mediante a divisão e a classificação, isto é, são ordenadas em sistema hierárquico, estando no vértice a idéia do Bem, que é papel da dialética (lógica real, ontológica) esclarecer. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas, assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. Logo, a idéia do Bem, no sistema platônico, é a realidade suprema, donde dependem todas as demais idéias, e todos os valores (éticos, lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível; é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. Portanto, deveria representar o verdadeiro Deus platônico. No entanto, para ser verdadeiramente tal, falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. Desta personalidade e atividade criadora - ou, melhor, ordenadora - é, pelo contrário, dotado o Demiurgo o qual, embora superior à matéria, é inferior às idéias, de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos.
As Almas
A alma, assim como o Demiurgo, desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria, à qual comunica o movimento e a vida, a ordem e a harmonia, em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. Assim, deveria ser, tanto no homem como nos outros seres, porquanto Platão é um pampsiquista, quer dizer, anima toda a realidade. Ele, todavia, dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte, de superioridade, em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos, religiosos e místicos. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias, ao Demiurgo e à matéria), de natureza espiritual, inteligível, caído no mundo material como que por uma espécie de queda original, de um mal radical. Deve portanto, a alma humana, libertar-se do corpo, como de um cárcere; esta libertação, durante a vida terrena, começa e progride mediante a filosofia, que é separação espiritual da alma do corpo, e se realiza com a morte, separando-se, então, na realidade, a alma do corpo.
A faculdade principal, essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal, transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana, e da qual depende totalmente a ação moral. Entretanto, sendo que a alma racional é, de fato, unida a um corpo, dotado de atividade sensitiva e vegetativa, deve existir um princípio de uma e outra. Segundo Platão, tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas - ou partes da alma: a irascível(ímpeto), que residiria no peito, e a concupiscível (apetite), que residiria no abdome - assim como a alma racional residiria na cabeça. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional.
Logo, segundo Platão, a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca, até violenta. A alma não encontra no corpo o seu complemento, o seu instrumento adequado. Mas a alma está no corpo como num cárcere, o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias, que devem ser trabalhosamente relembradas. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. E, apenas mediante uma disciplina ascética do corpo, que o mortifica inteiramente, e mediante a morte libertadora, que desvencilha para sempre a alma do corpo, o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal.
O Mundo
O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos, as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas, introduzindo no caos a alma, princípio de movimento e de ordem. O mundo, pois, está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria), e é o devir ordenado, como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber, e é a opinião verdadeira. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica, haveria, antes de tudo, uma alma do mundo e, depois, partes da alma, dependentes e inferiores, a saber, as almas dos astros, dos homens, etc.
O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser, da ordem e da desordem, do bem e do mal, que aparecem no mundo. Da idéia - ser, verdade, bondade, beleza - depende tudo quanto há de positivo, de racional no vir-a-ser da experiência. Da matéria - indeterminada, informe, mutável, irracional, passiva, espacial - depende, ao contrário, tudo que há de negativo na experiência.
Consoante a astronomia platônica, o mundo, o universo sensível, são esféricos. A terra está no centro, em forma de esfera e, ao redor, os astros, as estrelas e os planetas, cravados em esferas ou anéis rodantes, transparentes, explicando-se deste modo o movimento circular deles.
No seu conjunto, o mundo físico percorre uma grande evolução, um ciclo de dez mil anos, não no sentido do progresso, mas no da decadência, terminados os quais, chegado o grande ano do mundo, tudo recomeça de novo. É a clássica concepção grega do eterno retorno, conexa ao clássico dualismo grego, que domina também a grande concepção platônica.